Pular para o conteúdo principal

O PAÍS DAS APARÊNCIAS


Nosso país é o país das aparências, e isso se estende aos Estados e Municípios. Pra começar, temos uma Constituição extensa, e emendada frequentemente. Temos leis e mais leis, praticamente para tudo que realizamos há uma legislação a respeito. Parece até que somos um povo ordeiro, cumpridor dos regulamentos, consciente dos deveres e com todos os direitos garantidos e resguardados. É essa a impressão que terá alguém que não conheça nossa realidade e que dela faça uma análise superficial. Mas a realidade é que o desrespeito é tão grande, que até atitudes simples que já deveriam estar introjetadas no senso comum precisam ser matéria de lei.

Outros países têm constituições bem menores e quantitativo de leis bem inferior, mas a sua população é mais conscientizada em relação à necessidade de se respeitar direitos e cumprir deveres, a noção de cidadania é mais perceptível. Talvez por isso sua situação econômica seja melhor, pois a base de todo desenvolvimento é o respeito ao coletivo.

O nosso sistema judiciário, erguido com base no princípio constitucional da ampla defesa, com tantas instâncias recursais, passa a impressão de que aqui ninguém é condenado injustamente e que todos os brasileiros, independente de quaisquer condições, terão garantido um julgamento imparcial e justo.

Mas, por tudo que temos acompanhado em Cabo Frio, e que vemos acontecer também em outros estados e municípios e em nível federal, percebemos o gritante distanciamento da teoria com a prática. Há justos pagando por injustos, inocentes condenados e culpados livres. Uma justiça que só é cega quando lhe convém e que se deixa seduzir pelos apelos dos provisoriamente poderosos. As “eternas” possibilidades de recursos são utilizadas como meios de protelar e nossa justiça, mais uma vez quando lhe convém, fecha os olhos e finge não ver. As leis são elaboradas de forma a permitir inúmeras interpretações e no seu próprio processo de produção quantas vezes, através de mera alteração de redação, são inseridas mudanças substanciais em benefício de cartas marcadas.

Dizem que o povo tem o governo que merece. Isso significa que o sistema é reflexo da sociedade, portanto, fica a reflexão: que tipo de sociedade estamos formando e o que estamos fazendo para mudar esse quadro? Procuramos ser mais conscientes enquanto cidadãos, mais ativos e participativos, buscando enxergar de modo mais coletivo ao invés de apenas mirarmos os próprios umbigos em busca de satisfações imediatas? Como estamos educando nossas crianças? Estamos conscientes de que vivemos em uma sociedade de direitos mas também de deveres, e que meu direito termina onde começa o do outro? Ao elegermos nossos representantes, valorizaremos o poder que temos nas mãos, analisando a história de cada candidato, suas realizações e seu caráter ou simplesmente venderemos nosso voto àquele que nos agraciar com algo imediato, mas que, a longo prazo, nos arruinará?

São questões nas quais precisamos nos deter por alguns minutos cada dia, analisar, rever atitudes para que, no momento em que tivermos o poder de decisão nas mãos, não o desperdicemos mais uma vez, ocasionando a colheita de frutos amargos por anos a fio.

Luciana G. Rugani

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

A CIDADANIA NOS DIAS ATUAIS

Cidadania é um termo cujo significado encontra-se em constante evolução, sendo modificado e ampliado através da história. Já esteve ligado somente ao exercício de direitos e deveres políticos, mas hoje, devido à evolução das relações sociais, possui um alcance muito maior que envolve também a questão da participação dos membros da sociedade em prol do bem comum. Há alguns anos atrás, os meios de participação social eram restritos, e daí também o conceito de que cidadão era aquele sujeito detentor do direito de voto. A nossa atual constituição federal trouxe enorme contribuição para a ampliação da noção de cidadania, através da instituição de diversos instrumentos de participação popular. Foi um grande passo, e por isso é chamada de “constituição cidadã”. A partir daí, algumas questões onde o abuso era mais evidente ganharam destaque e contribuíram ainda mais para a evolução da cidadania, como é o caso das questões de proteção aos direitos do consumidor e do agigantamento dos

DEMOLIÇÃO DOS QUIOSQUES NA PRAIA DAS CONCHAS E ILHA DO JAPONÊS

Na sexta-feira passada (15), aconteceu a demolição de quiosques na Praia das Conchas e na Ilha do Japonês por fiscais do INEA. Incrível a forma autoritária como as coisas acontecem hoje! Parece que o desrespeito e a força têm sido os principais instrumentos para atingir os objetivos! A questão ali estava sub judice , não havia ainda sentença determinando a demolição, como podem ver abaixo na tramitação do processo. E ainda, a forma como foram feitas as demolições revela total despreparo. Não respeitaram os carrinhos de ambulantes ali guardados, destruíram TUDO, quebraram vidros sem o menor cuidado e preocupação, deixando os pedaços espalhados pela areia da praia, agredindo aquele ambiente natural. Muito triste ver como tornou-se comum resolver as coisas "na marra". Falta total de respeito com anos de trabalho, afinal os quiosques pertenciam a trabalhadores e foram demolidos sem decisão judicial para tal. Seria muito bom saber o que a prefeitura tem a dizer sobre esse triste,

TEXTO EXCELENTE SOBRE RESILIÊNCIA

Como se forma um gênio como o escultor Auguste Rodin?   por Regis Mesquita   Blog www.psicologiaracional.com.br Em 1840 nasceu um gênio chamado Auguste Rodin? Não, ele se tornou um gênio , nasceu com potencialidades, vocações e plano de vida. A sua genialidade foi o fruto final de um longo processo de estudos, tentativas, erros, treinamentos, aprimoramentos, fracassos. Para cada obra bem feita, ele deve ter tido pelo menos uns 400 fracassos. Olhando pelo lado da proporção, o genial Rodin foi um fracassado. O pior vem agora: para cada obra Genial, para cada "obra prima", ele deve ter tido pelo menos uns mil fracassos (obviamente, estes números são projeções minhas). Rodin era pobre, foi rejeitado três vezes ao tentar entrar em escolas de artes. Mas, ele tinha uma arma infalível: ele brincava com a arte. Em nossa sociedade nós dizemos: "isto não é brincadeira, vamos fazer as coisas com seriedade. Se seguisse este preceito, Rodin teria si