Pular para o conteúdo principal

VÍCIO EM DINHEIRO E PODER - POR MATEUS SIMÕES

COLUNA DE MATEUS SIMÕES NO JORNAL "O TEMPO" - PUBLICADO EM 04/03/19 - 03h00

VÍCIO EM DINHEIRO E PODER

Esses mercadores da política precisam ser identificados

 - por Mateus Simões - 



Há vários motivos para entrar na política, ou na “vida pública”, como gostam de dizer, mas os piores deles são certamente dinheiro e poder. Não é por acaso que Sérgio Cabral, que continua preso, declarou, em depoimento à Justiça Federal, que o seu “apego a poder e dinheiro é um vício”.

A exemplo do ex-governador do Rio, os tais “viciados” são facilmente reconhecidos no ambiente público. Basta perceber que eles tomam posse já em campanha para a próxima eleição, sem nenhum compromisso de entrega à sociedade ou a quem os elegeu, senão um compromisso consigo mesmo: o de passar todo o mandato enriquecendo e fazendo campanha com dinheiro público para garantir os votos da próxima eleição.

Esses mercadores da política, que compram votos e vendem seus mandatos para garantir que permanecerão por lá, precisam ser imediatamente identificados, perseguidos criminalmente e eliminados, pelo voto, do cenário eleitoral. Eles representam uma grave doença no processo democrático, que fica não apenas fragilizado, mas completamente deturpado a partir da visão míope de quem compra os serviços do político que deveria trabalhar para a sociedade, e não por interesses menores ou particulares.

Como todo vício, com o tempo, ele coloca em risco o próprio agente. Mas, antes disso, no caso dos políticos, ele destrói a vida de milhares de pessoas, que dependem desse sujeito para ter acesso a serviços públicos básicos de modo eficiente. E, diante da bandalheira, essas pessoas se veem constantemente obrigadas a mendigar algum favor daqueles políticos que lhes são mais próximos para que consigam receber como esmola aquilo pelo que pagaram com seus impostos: segurança, saúde, educação e infraestrutura.

Quando reafirmo o meu desgosto com os políticos profissionais, que resolveram fazer da política não uma missão, mas um meio de vida, gosto de lembrar que quem se prende a isso como um viciado será capaz dos maiores absurdos para garantir sua recondução ao cargo. Não é coincidência que os maiores escândalos políticos derivem, quase sempre, da busca de reeleição de mandatários, que, no desespero de manter seus acessos ao dinheiro e ao poder, são capazes das maiores atrocidades.

Sei que o ambiente público é preenchido de interesses escusos por parte de muitos que estão do lado de dentro – mas também de outros tantos que se colocam do lado de fora como clientes do sistema. E é por isso que eu, desde a posse, insisto em gravar e publicar na internet os vídeos (em 360°) das reuniões com quem me procura no gabinete. Pode parecer chato, mas é uma forma de, a um só tempo, garantir a transparência que eu prometi na campanha eleitoral e promover um mecanismo de autoproteção. A depender do que o sujeito queira pedir em uma reunião, ao saber que ela é gravada e que será postada, logo desiste…

A mudança que precisamos está baseada num modelo diferente. Está baseada na vinda para o ambiente político de pessoas que não dependem da reeleição para continuar a viver. Está baseada na percepção de que o interesse a ser perseguido na atividade política é unicamente o interesse público – sem privilégios, sem indicações, sem jeitinhos, sem recomendações.

Para isso, precisamos que os “viciados” em dinheiro e poder saiam. E há duas formas de isso acontecer: sendo responsabilizados e presos pela Justiça ou perdendo eleições. Que a Justiça cumpra o seu papel. Enquanto isso, vamos também cumprir o nosso.

Fonte: https://www.otempo.com.br/capa/pol%C3%ADtica/mateus-sim%C3%B5es/v%C3%ADcio-em-dinheiro-e-poder-1.2144541

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

A CIDADANIA NOS DIAS ATUAIS

Cidadania é um termo cujo significado encontra-se em constante evolução, sendo modificado e ampliado através da história. Já esteve ligado somente ao exercício de direitos e deveres políticos, mas hoje, devido à evolução das relações sociais, possui um alcance muito maior que envolve também a questão da participação dos membros da sociedade em prol do bem comum. Há alguns anos atrás, os meios de participação social eram restritos, e daí também o conceito de que cidadão era aquele sujeito detentor do direito de voto. A nossa atual constituição federal trouxe enorme contribuição para a ampliação da noção de cidadania, através da instituição de diversos instrumentos de participação popular. Foi um grande passo, e por isso é chamada de “constituição cidadã”. A partir daí, algumas questões onde o abuso era mais evidente ganharam destaque e contribuíram ainda mais para a evolução da cidadania, como é o caso das questões de proteção aos direitos do consumidor e do agigantamento dos

TEXTO EXCELENTE SOBRE RESILIÊNCIA

Como se forma um gênio como o escultor Auguste Rodin?   por Regis Mesquita   Blog www.psicologiaracional.com.br Em 1840 nasceu um gênio chamado Auguste Rodin? Não, ele se tornou um gênio , nasceu com potencialidades, vocações e plano de vida. A sua genialidade foi o fruto final de um longo processo de estudos, tentativas, erros, treinamentos, aprimoramentos, fracassos. Para cada obra bem feita, ele deve ter tido pelo menos uns 400 fracassos. Olhando pelo lado da proporção, o genial Rodin foi um fracassado. O pior vem agora: para cada obra Genial, para cada "obra prima", ele deve ter tido pelo menos uns mil fracassos (obviamente, estes números são projeções minhas). Rodin era pobre, foi rejeitado três vezes ao tentar entrar em escolas de artes. Mas, ele tinha uma arma infalível: ele brincava com a arte. Em nossa sociedade nós dizemos: "isto não é brincadeira, vamos fazer as coisas com seriedade. Se seguisse este preceito, Rodin teria si

PARA HENRY BOREL

Não mais o riso fácil de criança! Os bonecos a lutar, Impulsionados por frágeis mãozinhas, Agora estão inertes Como inerte está  O seu corpinho sofrido. Não mais a alegria E o gosto da liberdade Dos dias fora do calabouço, O seu cárcere de dor. Quantos gritos mudos Em abraços silenciosos. Quantas dores caladas Gritadas em olhar de pavor. Quantos pedidos no choro fácil, No rostinho escondido no ombro No colo de sua algoz. Uma criança somente, E somente só. Única! Seu riso só seu, Seu olhar, sua identidade. Sua voz, seu abraço Únicos! Sua voz agora é silêncio, A mesma voz  Que animava brinquedos A mesma voz  Que implorava socorro na fala curta. Pai, me deixa ficar contigo! A luz aqui Pra sempre se apaga. Ficarão a saudade, E consciências sem paz. Mas a luz vive além Resplandece linda entre anjos. O anjo venceu o leão da arena E em outras esferas foi sorrir, Foi brincar, Foi viver. Liberto está, Para sempre, Das mãos frias de duros golpes, Dos abraços fortes de ódio E da tortura, Que dói