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SÍMBOLOS DA UNIVERSALIDADE - REFLETINDO SOBRE A XENOFOBIA

Em meu artigo de hoje, no Blog do Totonho, falo sobre alguns simbolismos que observei, por ocasião da eleição do novo papa, e os correlaciono com o preconceito da xenofobia, a hostilidade e rejeição aos estrangeiros:


As cerimônias religiosas naturalmente são dotadas de muito simbolismo. Mas, para além do simbolismo próprio dessas cerimônias, há também símbolos e significados que podemos, cada um de nós, atribuir aos fatos quando os observamos. 
Na última quinta-feira (8), por ocasião da escolha de Robert Francis Prevost como o novo papa, de nome Papa Leão XIV, não faltaram oportunidades para tal.
Entre as tantas observações dessa marcante quinta-feira, uma coisa me chamou a atenção: o novo papa é estadunidense de nascença e também peruano por escolha, em razão da obtenção de nova cidadania. Destaco essa condição em razão do impulsionamento que o presidente dos EUA, Donald Trump, tem dado à xenofobia. Em tempos de deportações aos montes, inclusive com prisões realizadas de maneira violenta e de estímulo ao preconceito contra imigrantes, eis que nos chega um novo papa, com duas cidadanias, podemos dizer que até um pouco mais latino-americano do que estadunidense.
A xenofobia, assim como qualquer preconceito, possui um espectro que vai muito além do ato xenofóbico em si. Não é preocupante apenas o ato por meio do qual se tipifica o preconceito, mas também a ideia que é semeada, afinal uma ideia pode ocupar as mentes de muitos seres humanos que com ela se afinizam e, a partir daí, fazer vir à tona o preconceito antes oculto nesses seres; o preconceito que, quem sabe, até esses mesmos seres desconheciam possuir. 
Há dois meses, o jornalista brasileiro Jamil Chade relatou algo que ilustra bem o quanto uma ideia preconceituosa se fortalece, chegando a influenciar até mesmo as crianças. Segundo contou o jornalista, seu filho, criança e estudante de uma escola em Nova York, envolveu-se em uma discussão em razão de disputa esportiva, discussão comum em pátios de escolas, com uma coleguinha americana. E, de repente, a coleguinha, com cerca de 10 anos de idade, diz pra ele: "Tomara que você seja deportado". O filho de Jamil levou um susto, pois, para ele e até então, a diferença de nacionalidade nunca havia sido algo relevante entre eles. Então, percebe-se que a ideia xenofóbica, semeada por Trump, serve como uma autorização para a xenofobia. A deportação acaba funcionando não apenas como um instrumento de política pública, mas também como um instrumento de ofensa e de agressão. O mais preocupante é o fato de o preconceito estar sendo ensinado e estimulado pelas atitudes do presidente dos EUA. 
Os EUA têm se destacado, ultimamente, em relação à xenofobia, entretanto ela está presente na ideologia fascista de extrema direita que se ramifica por vários países, inclusive no Brasil. Aqui também percebemos estímulos ao preconceito, principalmente quando líderes políticos dão, em suas falas, exagerado destaque à origem dos cidadãos, ou quando priorizam demasiadamente a diferença de origem de cada um ao tratarem de serviços e de direitos e, assim, acabam por "autorizar" tratamento diferenciado conforme seja a origem de cada cidadão. É como um "germe silencioso" que espalham em uma sociedade, fazendo com que seus membros passem a expressar falas e atitudes xenofóbicas para com cidadãos não nascidos no local.
Voltando, então, à escolha do novo papa, também não passou despercebida a presença daquela linda gaivota perto da chaminé da qual saiu a fumaça branca. A nossa tão conhecida gaivota, ave que vemos tanto aqui em nossas praias cabo-frienses. E, por que não, mais um símbolo de nossa universalidade! Ela não é somente daqui, não é somente de lá, ela é do universo, assim como o papa é dos EUA, é do Peru, é da Itália, é de todo o mundo, enfim, é um cidadão universal! 
Tal como diz a frase, por uns, atribuída ao filósofo Sócrates e, por outros, ao filósofo Plutarco: "Não sou nem ateniense, nem grego, mas sim um cidadão do mundo.” 
Muitas vezes, os símbolos costumam ser sinais que nos chamam a um profundo mergulho em reflexões que nos transportam para a amplidão de nossa visão de mundo, fazendo-nos, nesse caso em tela, perceber o quão mesquinho e pequeno é mensurar, por meio das origens, o valor dos seres humanos.

Luciana G. Rugani
Pensadora, escritora e poeta

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