Pular para o conteúdo principal

4ª EDIÇÃO LEITURAS NO MART - REFLEXÕES SOBRE A ESCRAVIZAÇÃO

Hoje, no Blog do Totonho, reflexões que fiz por ocasição da última edição do ano do Círculo de Leitura no Museu de Arte Religiosa e Tradicional - MART, em Cabo Frio:

Leituras no Mart - Reflexões sobre a escravização
Dia da Consciência Negra - Reflexões sobre a escravização
Texto de minha autoria em homenagem da Academia de Letras de São Pedro da Aldeia - ALSPA ao Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra

No dia 4 passado, aconteceu a última edição do ano do projeto "Leituras no MART - Memória", organizado pelo Círculo de Leitura da Sophia Editora, aqui em Cabo Frio. O conto, objeto de leitura e de debate da noite, foi "Aspino e o Boi", da escritora quilombola Gessiane Nazário. Gessiane é quilombola da Rasa, em Armação dos Búzios, e autora do livro "Revolta do Cachimbo". O conto "Aspino e o Boi" constitui o primeiro livro infantil da autora, porém é uma história real de seu avô Aspino e seu conteúdo interessa também a adultos.

Os acontecimentos pós-escravização, registrados nas obras de Gessiane, são relevantes e reveladores de muitos porquês e de uma realidade muitas vezes esquecida e escondida "embaixo do tapete". A autora, ao realizar a difícil tarefa de relembrar situações de sofrimento, exploração e humilhação de seus ancestrais, acaba por ressignificá-las como história e memórias que merecem e precisam ser lembradas por gerações futuras. São histórias que, muito além de explicarem costumes sociais, provocam reflexões e paralelos importantes entre passado e presente.

Conhecer mais a fundo o período pós-escravização me fez refletir que, infelizmente, a escravização não se constitui apenas de fatos concretos e passados, mas vai muito além disso. Ela não acabou no dia seguinte à assinatura da Lei Áurea, mas permaneceu presente e oculta por máscaras de outras formas de exploração. Vejo-a como um "modus operandi exploratório" que apenas sofisticou a escravização. E aí reside a importância crucial de ler, conhecer e analisar a história em face de situações atuais. Logo após a libertação dos escravizados, esses tiveram que se submeter a situações degradantes e a uma luta constante para, simplesmente, sobreviverem. Os antigos senhores, ávidos por mais e mais terras, impunham condições duríssimas para que os recém-libertos pudessem seguir vivendo naquelas terras, condições muitas vezes sobre-humanas e quase impossíveis de serem cumpridas seguidamente. Daí surgiram inúmeros conflitos, lutas e expulsões. Os recém-libertos eram proibidos de frequentar alguns locais e sofriam toda sorte de preconceitos.

Quando vemos, na atualidade, situações que seguem perpetuando o tratamento indigno para com a parcela pobre da população, ou a propagação de ideias que sugerem extinção de direitos sociais sob a máscara de um falso "empreendedorismo", ou até mesmo o uso da pobreza como meio de obter louros políticos, percebemos que ainda segue viva a semente da exploração, a ideia da subjugação e dominação do outro. Infelizmente, percebemos que, se houvesse hoje uma lei de retrocesso, permitindo a escravização da forma como acontecia antes, muitos abraçariam de cara a proposta e a defenderiam com argumentos construídos com termos modernos e, o que é pior, conseguiriam convencer certa parte da sociedade, essa mesma parte que hoje se deixa levar por informações propagadas de maneira rasa e fora de contexto.

Infelizmente, a ideia de exploração segue viva a ameaçar conquistas obtidas e direitos instituídos e conta, a seu favor, com uma parcela da sociedade que abdicou completamente de uma consciência social crítica e optou por apenas reagir raivosamente e deixar-se levar pela parcela de desinformação das redes sociais. E esse panorama, ao qual adiciona-se o medo e o caos semeado pelo extremismo dominador, é o cenário perfeito para que a escravização moderna siga se fortalecendo.

Entretanto, essa luta não é de hoje, como revela nossa história. É muito antiga e, certamente, existe desde que existe o ser humano. A evolução humana é lenta e faz-se por meio de avanços e retrocessos. Por isso, todo trabalho que permite um maior alargamento e aprofundamento da consciência crítica é bem-vindo e muito relevante. A sociedade precisa seguir atenta às transformações de capa que escondem no conteúdo o gérmen da exploração do outro, o gérmen da indignidade e da subjugação, e, para isso, é essencial sair da reação e partir para a ação, tomar as rédeas de sua consciência, buscar esclarecimentos e análises de contextos, e abdicar da dominação intelectual, a mais sutil das dominações em tempos de tanta desinformação.

Luciana G. Rugani
Pensadora, escritora e poeta

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

4ª EDIÇÃO DO BARALHARTE - TEMAS DA ATUALIDADE

Ontem, sábado, aconteceu a 4ª edição do BARALHARTE!  Trata-se de um encontro de debatedores sobre quatro temas atuais, representados pelos quatro naipes do baralho e por quatro regiões diferentes de nosso país. Cada debatedor leva um tema que será debatido pelos demais e também por convidados presentes. Os debatedores desta edição foram eu, Luciana, representando o estado do Rio de Janeiro, Gilvaldo Quinzeiro, representando o Maranhão e Amaro Poeta, representando Pernambuco. Fernanda Analu, representando Santa Catarina, em razão de um compromisso de última hora, não pôde participar. Mas contamos também com as convidadas Mirtzi Lima Ribeiro e Valéria Kataki e com os convidados Hairon Herbert, Julimar Silva, Ricardo Vianna Hoffmann e Tarciso Martins. Agradeço a Gilvaldo Quinzeiro pelo convite e pela oportunidade de participar de um encontro tão engrandecedor, oportunidade que temos para aprender muito sobre variados assuntos. Cliquem abaixo para assistir: Luciana G. Rugani

POEMA - DIREITOS HUMANOS

Direitos Humanos Humanos não parecem ser Os que a vida vivem a abater. Humanos não parecem ser Os que a liberdade insistem em tolher. Humanos não parecem ser Os que a equidade negam reconhecer. Vida, com dignidade, Liberdade, com respeitabilidade, Respeito à diversidade, Educação, com qualidade. Quesitos de uma sociedade Que reconhece a humanidade. Não há que ser humano direito Para um direito humano merecer. Ser perfeito não é o preceito  Basta apenas o ser! Será mera utopia Em meio à distopia? Direitos humanos, como há de ser Onde há mais desumano que humano ser? Luciana G. Rugani  2/9/2022

1º FESTIVAL INTERNACIONAL DE CINEMA DE CABO FRIO - FINCCA

No período de 14 a 17 de maio, na cidade de Cabo Frio, acontece a 1ª edição do Festival Internacional de Cinema de Cabo Frio - FINCCA. Trata-se de um evento pioneiro que acontecerá em diversos pontos culturais de Cabo Frio e que visa a celebração da sétima arte na cidade. Essa primeira edição terá o mar como tema de todas as suas atividades e contará com uma programação variada e gratuita. Serão 26 filmes gratuitos distribuídos em diferentes mostras, workshops, oficinas e atividades formativas, sendo quatro mostras (internacional, latino-americana, infantil e grandes clássicos).  Além disso, o festival contará com concurso de poesias e de fotografias, tudo dentro da mesma temática. O festival é uma realização da ONG Bem Querer, com apoio, via emenda parlamentar, do deputado estadual do Rio de Janeiro, Flavio Serafini; da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Rio de Janeiro - Secec - e do Cabo Frio Convention & Visitors Bureau. E, dando início às atividades do C...