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VALE A PENA TEMER O INEVITÁVEL?

Hoje, no Blog do Totonho, falo sobre o medo do inevitável e sobre como ele consegue crescer juntamente conosco, pois assim permitimos que seja à medida que deixamos de ser crianças e nos tornamos adultos.

Vale a pena temer o inevitável? crônica Luciana Gonçalves Rugani Blog do Totonho

Em dias calmos e ensolarados de férias, ou em domingos de sol na praia, quem nunca se dedicou, por alguns minutos, à contemplação dos pássaros a voar no céu? Alguns em posição bem alta, como os urubus, e outros mais baixos, ou até rentes ao chão, mas todos ali, sem medo, entregando-se ao voo.
Eu estava assim, observando o céu claro, de puro azul, e bem lá no alto alguns urubus a voar. 
Fiquei imaginando as condições de voo. A qualquer momento, pode passar um avião e atropelá-los fatalmente. Ou ainda, em meio a pesadas nuvens, estão sujeitos a fortes tempestades. E ainda assim entregam-se ao voo sem medo.
Ao mesmo tempo, eles podem pensar: "estranho, aqueles seres lá embaixo, altos, andando nas ruas em apenas dois apoios, eles podem facilmente se desequilibrar e cair!" E, de fato, aqui seguimos nós, andando pelas ruas, em dois apoios, andando e confiando em cada passo, confiando em cada respiração, confiando na vida. 
Mas não mantemos a mesma confiança em se tratando de situações mais complexas. Muitas vezes, situações apenas imaginárias, que podem nem chegar a acontecer, nos travam e nos deixam angustiados, ansiosos e logo nos sentimos sem energia. O medo nos consome. 
Quando nascemos, somos mais ou menos como os pássaros. Aprendemos a andar, nos entregamos a um passo de cada vez e às brincadeiras ousadas de criança. À medida que crescemos, aprendemos a noção de perigo, aprendemos a ter certos cuidados, porém costumamos deixar ir embora de vez aquela confiança e aquela capacidade de entrega ao desconhecido amanhã que não podemos evitar, ao que não podemos controlar. Por que passamos a temer aquilo que não temos controle? Por que tememos algo que às vezes nunca acontece? Por que temos tanta facilidade para nos agarrarmos ao sopro de medo daqueles que o semeiam para nos dominar? 
Vivemos um tempo muito estranho, com acontecimentos pra lá de estranhos! Líderes, que deveriam promover a paz, usam o caos e semeiam o medo para manipular tendências e impor o domínio. E muitos de nós, com os espíritos já inundados de receios e bloqueios internos, permitem absorver a névoa pestilenta do medo que eles espalham. Onde está aquela entrega confiante tão presente no aprendizado dos primeiros passos? Onde está a confiança na vida? Ter medo, absorver a angústia que transborda desses que governam com ódio, com ganância e sem a menor empatia, em nada permitirá que evitem o que não se é capaz de evitar. Absorver essa angústia só fará jogar o jogo deles e, aí sim, aceitar o domínio pernicioso. 
O desconhecido inevitável não nos cabe, ele pertence ao universo ilimitado de possibilidades. Vivemos sujeitos a infinitas possibilidades de destino. Por mais que tenhamos a sensação de que podemos controlá-las, essa sensação é apenas uma ilusão, e isso também é libertador, pois nos liberta da ideia de que temos que acertar sempre e de que tudo é responsabilidade nossa. Nem tudo. Podemos fazer muito, com certeza. Mas há o inevitável, o incontrolável, o infinito do ser ou do não ser.
Respirar fundo, acalmar e seguir fazendo o que nos cabe fazer, o que nos é possível fazer. E nos entregarmos à vida com confiança, nos entregarmos às infinitas possibilidades com a humildade de quem caminha sabendo que pode dar um passo em falso, mas mesmo assim segue caminhando. 
Como o pássaro que toma da vida o que lhe cabe, não mais, não menos. Voa, às vezes com arte. Outras vezes, desconjuntado. Mas, ainda assim, ele voa. Sabe que poderá encontrar seres que, dele, zombem. Sabe que poderá encontrar seres de alma deserta, ou que tentem aprisioná-lo. Mas, ainda assim, ele voa. Joga-se no ar e vive aquilo que lhe cabe viver.

Luciana G. Rugani
Pensadora, escritora e poeta

Comentários

  1. Muito recorrente a reflexao. Temos que nos jogar nas veredas da vida.

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