terça-feira, 24 de setembro de 2013

AMIZADE x POLÍTICA: É POSSÍVEL CONCILIAR?

Há alguns conceitos que são muito relativos e que se alteram conforme a visão de quem os expõe. Há também conceitos que se entrechocam devido ao fato de haver diferença crucial entre suas raízes.

O conceito de "amizade" é um deles.
Tenho observado, a partir da experiência de fatos ocorridos, que a amizade possui um conceito relativo para cada pessoa de acordo com seus próprios valores e sua própria vivência. Para uns, amigo é aquele que está sempre ao lado, para outros a distância não é problema para se ter um amigo; para uns é aquele que nunca diz não, enquanto há outros que prezam o respeito à livre opinião.
Essa questão da diversidade conceitual agrava-se ainda mais quando envolve outros conceitos cujas raízes se chocam com a base essencial do "ser amigo", como, por exemplo, o meio político.

O meio político é caracterizado pelo predomínio dos interesses. Tudo gira em torno da conciliação dos interesses (interesses do governo com interesses do povo; dos empresários com trabalhadores; etc.)

Na política, o termo "amigo" se perde, pois tudo se mistura e se confunde. Chama-se de "amigo" àquele que apoia, que faz parte do mesmo grupo político, que compartilha das mesmas ideias e do mesmo perfil político. Acontece que é justamente aí que começa a confusão, e que as raízes dos conceitos se entrechocam.  A razão disso está na essência dos conceitos: política = conciliação de interesses. Amizade = livre bem-querer. 

Na amizade, é intrínseca a liberdade. É um livre bem-querer, não se gosta de alguém por pressão, por medo ou por dever. Na essência da amizade encontra-se justamente o livre bem-querer do outro, reciprocamente, aliado ao respeito e compreensão mútuos. E querer bem muitas vezes compreende atitudes firmes, negativas.  Quando, por exemplo, vemos um amigo nosso caminhando em direção a um buraco, vamos deixá-lo seguir em frente? Claro que não, vamos alertá-lo para mudar a rota. Se ele insiste e diz: não, eu quero ver o que tem no buraco, quero continuar por aqui. Se nós sabemos que ele vai cair, não devemos dizer o que pensamos? Devemos simplesmente apoiá-lo e, mais que isso, ir junto com ele? Repito, claro que não. Podemos alertá-lo, mas se ele insiste, deixemos que se vá, mas não necessariamente precisamos ir com ele. Estaremos aqui do lado de fora para socorrê-lo, se necessário for. Não deixaremos de ser amigos por isso, afinal de contas, como eu disse acima, na essência da amizade estão o bem-querer, o respeito e a compreensão mútuos. Compreender os limites do outro, as impossibilidades, a opinião divergente, a liberalidade de fazer ou não algo. 
Agir assim costuma ser algo impossível na política. Na política, se contrariamos, se agimos firmemente em sentido contrário à ideia do nosso "amigo", já somos considerados não-amigos, como se fôssemos adversários. No grupo político, não há a liberalidade natural da amizade. Um não está ali porque  gosta, porque admira ou porque se afiniza. Está ali porque é apoiador do mesmo projeto político, é peça do jogo e do acordo de interesses, portanto é natural que haja uma subordinação às estratégias do projeto.

É comum acontecer de pessoas que vivem há anos na política, com o tempo, passarem a misturar estes conceitos, a não distinguir o apoiador do amigo propriamente dito. Um político que achar que todos que o apoiam são seus amigos, certamente terá decepção atrás de decepção. Há que saber distinguir entre o apoiador e o amigo, e não se perder nestes conceitos. Há muitos apoiadores, e poucos amigos. Todos os apoiadores que ali estão o fazem porque estão em busca de algo. Não estão ali simplesmente pelo livre bem-querer. Geralmente são pessoas que têm algum interesse próprio satisfeito em troca do apoio dado. 
E amizade não é troca, amizade é doação, é querer-bem, ainda que sigam por caminhos diferentes ou que tenham opiniões diversas. 

Como eu disse acima, o choque se dá por causa de diferenças básicas na raiz de ambos os conceitos, e sendo assim se estende também às expectativas.

Sabemos que seria mais saudável para nós nos relacionarmos sem criar expectativas em relação ao outro, mas creio que nós, seres humanos, ainda não atingimos esse nivel de sentimento tão mais elevado. Ainda esperamos muito uns dos outros, ainda idealizamos e queremos que o outro corresponda às nossas expectativas. E quando se unem duas relações tão distintas, como são a relação política e a relação de amizade, as expectativas também se chocam. O amigo espera a compreensão de seus limites, de suas impossibilidades; o diálogo; o compartilhamento das alegrias e das dores; e o respeito. E isso reciprocamente, pois não existe amizade de um lado só, então espera-se o mesmo um do outro. 

Já o político espera apoio irrestrito; compartilhamento das ações; participação das mesmas estratégias de seu grupo; há como que uma subordinação ao mesmo projeto político.

Por fim, fica a pergunta: é possível haver uma relação de amizade e ao mesmo tempo uma participação e colaboração conjunta no meio político? Responderei baseado no que expus e na minha experiência pessoal: é possível sim, desde que haja interesse na preservação da amizade e atenção para não se perder na distinção dos conceitos, conforme expliquei acima. Há que se ter uma visão muito clara das diferentes formas de participação. É o mesmo que se dá na relação de trabalho, onde por exemplo um patrão tem amizade com o empregado. A relação será segura e tranquila se ambos souberem respeitar e distinguir a questão profissional da amizade, o momento em que deve predominar uma ou outra. Um patrão não deixará de ser amigo pelo fato de discordar do modo de organização do trabalho de seu empregado. Assim também será na política. Dois amigos podem caminhar juntos no mesmo projeto político desde que saibam enxergar com clareza essa distinção. A amizade não pode ser questionada a partir do momento em que o amigo opinar diferentemente sobre uma questão política. Se há a confiança (e confiança é a base da relação), a amizade deve ser preservada como um rico tesouro, pois que de fato o é.

A amizade e a política, ambas nunca devem ser utilizadas como argumento para se atingir os objetivos de uma ou de outra. A amizade nunca deve ser questionada quando há divergências políticas, da mesma forma que a concordância ou discordância com algo político não deve ser impedimento para a existência da relação de amizade. 

Luciana G. Rugani
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Em tempo: dois anos depois retifico meu posicionamento neste texto. Depois de vivenciar um certo tempo no meio político, posso concluir com segurança: não existe amizade no meio político. E digo isso por constatação própria, a política é um meio regido unicamente por interesses, e tudo vai bem com o "amigo" enquanto este possui uma postura que vai ao encontro dos interesses do outro. Uma linha de posicionamento um pouco fora do sentido dos interesses, a "amizade" é prejudicada. Constatei também que no meio político não há envolvimento de sentimentos. Constroi-se uma relação sem raízes. Convive-se às vezes até anos com uma pessoa, e do nada, ante a primeira contrariedade, essa pessoa corta o papo como se corta uma planta. Não há vínculos, não há relações construídas, e sim forjadas. 
Infelizmente este foi meu aprendizado, adquirido a duras penas, com experiências dolorosas.  Amizade e política são como dois corpos aos quais é impossível que ocupem o mesmo espaço.

Luciana G. Rugani

14 comentários:

  1. Ana Maria Henriques24 de setembro de 2013 01:26

    Perfeita sua colocação!! Só lastimo que nem todos os "amigos" e nem todos os "políticos" saibam ver esta linha invisível que separa um e outro!! O pior mesmo é quando o cristal se parte!! Aí minha amiga não há conserto, pois vc sabe muito bem que a base da amizade é a confiança, e quando, por qq motivo, esta se quebra, não será mais a mesma coisa!! É como o cristal não tem como colar.

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    1. Bom dia, amiga Ana!! Seja bem-vinda a este nosso cantinho das ideias! Entre, sente e fique a vontade para nosso bate-papo!
      É amiga.. é uma pena que nem todos consigam perceber. Na verdade isso vai muito dos costumes e da vivência de cada pessoa. Mas acredito que sempre é tempo de refletir e de buscar aprimorar. Sabemos que é através da relação com o outro que podemos crescer e evoluir. E relação humana é isso, é estarmos abertos à reflexão, ao entendimento, à compreensão dos diferentes pontos de vista. Se nos fecharmos em nosso modo de pensar, relutantes em compreender o outro, aí sim seremos como ilhas e cada vez mais incapazes de distinguir se aqueles que estão ao nosso redor, concordando sempre conosco, o fazem por convicção própria ou por medo, por certa dependência ou bajulação. Quanto mais resistentes formos à livre manifestação do outro, mais estaremos impedindo relações verdadeiras e de confiança, pois nunca saberemos quando alguém estará ao nosso lado por vontade e convicção ou simplesmente para satisfação de algum interesse próprio. Um grande abraço, minha querida!

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    1. Bom dia, amigo! É uma honra ter você conosco aqui em nosso espaço para discutirmos ideias e manifestarmos nossas opiniões. Sinta-se à vontade para participar sempre conosco, você é muito bem-vindo! Abraços!

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  3. Concordo e acredito q uma verdadeira amizade deve se sobrepor a distância, tempo e qq outras dificuldades. Um amigo sincero vai falar a verdade,mesmo aquelas q queremos ouvir pq ele nos quer bem e o único interesse será a nossa felicidade e sucesso.

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    1. Minha amiga querida, é um prazer ter você também aqui conosco. Como eu disse na abertura do blog, quero fazer deste espaço um espaço para exposição de opiniões, debate de ideias, um cantinho como se fosse a sala de nossa casa para sentarmos bem à vontade e conversarmos. Só falta um bom vinho, mas aí fica por conta de nossa imaginação, ok? rsrs Este espaço não é só meu, é nosso. Quero fazê-lo bem interativo, aberto a todas as opiniões e também à divulgação dos escritos de todos vocês. São todos muito bem-vindos ao nosso cantinho! E é isso aí, você disse tudo. O querer bem é a base da amizade, só isso. Claro que entre amigos podem haver relações comerciais, profissionais e até políticas, como é o caso da abordagem deste texto. A questão é só aprendermos a distinguir e sabermos preservar ambos aspectos. Me lembrei agora do caso de dois amigos. Um é delegado, muito sério e ético. O outro é advogado, não tão ético e não tão sério. E ambos se dão super bem, convivem, dialogam, compartilham momentos e opiniões. Muitas vezes o delegado luta para prender um elemento e quando vê o advogado seu amigo está lá, na defesa do elemento e conseguindo o habeas-corpus. Eu admiro a convivência dos dois, pois ambos entendem e respeitam o âmbito de atuação e o modo de agir de um e de outro, e conseguem preservar a amizade sem misturar as questões profissionais. É um aprendizado e tanto, mas que fica aí como exemplo e registro para refletirmos. Um bom dia pra você, abração no nosso querido Machado!

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  4. Obrigada amiga darei sim. Quanto ao meu comentário, desculpe o formato é que postei do celular e ai como você sabe, ele tem vontade próprias em algumas vezes, rsrs. Complementando a frase quanto a falar a verdade, sempre, mesmo aquelas que não queremos ouvir mas só os verdadeiros amigos tem a coragem de dizer. Bjs.

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    1. rsrs..não se preocupe..rsrs eu percebi, mas entendi perfeitamente o que você queria dizer. E concordo contigo. Só lastimo pelo fato de serem pouquíssimas as pessoas verdadeiramente preparadas para serem amigos. Vamos vivendo e descobrindo mais pseudo-amigos do que amigos propriamente dito. Por isso amizade é algo cada vez mais raro e cada vez mais precioso. bjs

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  5. Olá Luciana!
    Não te conheço; não sei que é você(redundância kkk)
    Entrei neste Blog por acaso, quando em busca de sugestões para uma palestra.
    Me surpreendi pelos textos que encontrei.
    São objetivos, concisos, inteligentes, educativos, reflexivos, apaixonantes até!
    Ganhastes um admirador!
    Parabéns!
    Seus textos, poderiam ser utilizados em salas de aulas para reflexões críticas de nossa sociedade atual, colaborando para formatação de uma nova cultura, privilegiando a cidadania, seu exercício e espírito de solidariedade pelo bem comum.

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    1. Olá Osmar!
      Fico feliz que tenha gostado! Hoje em dia, em um mundo onde as pessoas estão cada vez mais ligadas em consumismo e menos em reflexão, onde conteúdos vazios, fofocas e boatos de internet batem recordes de acessos, é muito grande a satisfação de receber um comentário positivo como o seu, e é um estímulo para que eu continue. Geralmente, textos reflexivos e que se destinam a uma melhor conscientização das pessoas não são a preferência do grande público, mas eu sempre costumo dizer o seguinte: "vou continuar, pois são como sementes sendo lançadas. Se pelo menos uma pessoa se interessar e refletir, já terei cumprido o papel a que me propus".
      Muito obrigada, meu amigo! Seja bem-vindo ao nosso blog e saiba que ele é um espaço aberto também à contribuição dos amigos que quiserem colaborar com algum texto. Desde já, você está convidado a participar!
      Grande abraço!

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    2. Ah, eu já ia esquecendo: gostei tanto do seu comentário que o coloquei como destaque em um artigo próprio, veja: http://www.cantinhodasideias.com.br/2014/08/comentario-relevante-sobre-politica-nos.html

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  6. Na gradação dos sentimentos humanos, a amizade sincera é bem o oásis de repouso para o caminheiro da vida, na sua jornada de aperfeiçoamento. Nos trâmites da terra, a amizade leal é a mais formosa modalidade do amor fraterno, que santifica os impulso do coração nas lutas mais dolorosa e inquietante da existência. Ter amizade é ter coração que ama e esclarece, que compreende e perdoa, nas horas mais amargas da vida jesus é o divino amigo da humanidade saibamos compreender a sua afeição sublime e transformaremos o nosso ambiente afetivo num oceano de paz e consolação perenes

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  7. Acho que você violou os direitos autorais de alguém, pois eu já vi esse mesmo texto (Amizade X Política..) publicado por outra pessoa, nesse link aqui: https://www.facebook.com/photo.php?fbid=1050206881763612&set=a.418085034975803.1073741826.100003229311515&type=3&theater

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    1. Todos os textos aqui são de minha autoria. Os que não são eu posto a autoria. Não violo direitos autorais, pois sou advogada e sei muito bem como agir em relação a isso. Para sua informação, este meu texto foi postado em 24/09/13, como você pode ver na data lá em cima, inclusive foi compartilhado no facebook na mesma data. E o post do face a que você se refere foi postado em 2015:https://www.facebook.com/eduardo.barbosaneves.1/posts/1050206898430277?comment_id=1050655328385434 A você que se deu ao trabalho de me informar, digo que já estou tomando as providências legais.
      E ainda: https://www.facebook.com/carpediemluciana/photos/a.245446005617919.1073741828.245027755659744/649118865250629/?type=3

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