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POR RAUL DE TAUNAY - REFLEXÃO

por Raul de Taunay

Meus amigos, 

Neste mundo em que nascemos, vivemos e morremos, os amigos são mais do que apenas complexidades semânticas ou intimidade entre dois seres humanos. Os amigos tem relação estreita com a virtude e a felicidade, e suscitam na alma a benevolência que instiga a reciprocidade do querer bem.

Sem amizades não há vida digna ou prazerosa, nem sociedade que se sustente.

Por essa razão, vejo com receio o clima de guerra que está se formando em nosso país - certamente estimulado por aqueles que nunca viveram uma guerra e não tem noção de suas consequências.

Hoje, infelizmente, vemos famílias se desmantelando em função de discordâncias políticas. A fome voltou, a inflação também, a violência das armas é estimulada por quem deveria inspirar a paz e a estabilidade. E para irritar mais o tecido social, as cepas novas do corona vírus ganham força em meio às crenças dos que  não se convenceram ainda de que devem usar máscara para não aumentar o contágio. Parece coisa de doido mas não é. São amigos meus, amigos seus, amigos nossos, no Brasil inteiro, teimando em vencer o vírus com aglomerações, baladas, praias cheias e… balas de fuzis.

Diante dessa insensatez, amizades acabam se desgastando e a demência crônica de poucos prospera num palco em que a maioria do povo, massacrado por notícias falsas e mentiras, entra num estado de estremecimento: amigos voltam-se contra amigos, parentes contra parentes, irmãos contra irmãos, num clima de inimizade e aversão que multiplica dentro do cidadão uma indesejada repugnância figadal em relação ao outro, por vezes amigo querido de uma vida inteira, numa clara demonstração de que o berrante do Sérgio Reis tem tido um poder hipnotizador sobre minorias que constroem a narrativa de que o povo não precisa de direitos humanos ou trabalhistas, nem de carne ou feijão, nem de saúde ou emprego, nem de educação ou assistência. 

E nisso se formam as desavenças pois nem todos acreditam que se possa desenvolver um país sem programas e políticas públicas. Poderíamos realmente empreender de barriga vazia, disputar um lugar ao sol sem preparação, vencer sem conhecimento, sobreviver até o fim da vida sem ajuda? Estaríamos entrando numa nova era bárbara e selvática do « cada um por si e Deus por todos », ou acima de todos? Ou estaríamos assistindo, em pleno século 21, a um  grande pátio dos  milagres formando-se dentro do território nacional?  

Fotos recentes de famílias de classe média dormindo ao relento em plena avenida Paulista, ou sobre as calçadas de N.S de Copacabana, oferecem a radiografia exata da situação de penúria em nossa pátria. Em breve, quando perdermos o pão, o feijão, a casa, o emprego, o carro, o seguro social, a aposentadoria (e a vergonha na cara), teremos a compensação de um « Big-brother » a vociferar pelos veículos de comunicação: « deixem de ser idiotas, deixem de ser otários, comprem fuzis! »

Neste ponto, eu me dou conta de que esta fase no Brasil é apenas um momento de desvio, que expôs o lado ruim das pessoas mais próximas que jamais imaginaríamos serem tão desalmadas. Em meio a esse quebranto, pergunto ao meu melhor amigo: -«comprar um fuzil para que? Para assaltar e, assim, poder comer?»

Ninguém responde, o vento traz ao longe, como um estrondo, o reboar dos tambores: o 7 de setembro se aproxima a passos rápidos e, da forma que vamos, saudaremos o dia da pátria entre hostilidades e conflitos, quando poderíamos estar exercendo plenamente a cidadania em prol deste nosso povo desamparado. 

Onde se perdeu o tempo das amizades fraternas no seio de nossa sociedade? Onde está você meu amigo do peito, meu irmão camarada? 

(Raul de Taunay, 28 de agosto de 2021)

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