O mês de março é o mês em que o tema da Mulher é destaque. Contudo, depois que passa esse mês, o tema dissolve-se nas questões cotidianas perdendo o destaque a ele merecido. Todavia, considerando a gravidade do momento atual, quando os índices de feminicídio e de violência contra a mulher atingem níveis recordes no Brasil, é importante que a abordagem do tema seja ampla e se perpetue no tempo para colaborar na formação de uma consciência geral que abomine esse tipo de crime e para ajudar mulheres que passam por essas situações.
A Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil, Coordenadoria Minas Gerais - AJEB-MG, entidade da qual faço parte desde fevereiro passado, resolveu colaborar na divulgação do tema por meio da elaboração de um concurso literário e de uma coletânea intitulada "Vozes Libertas", organizada pela ajebiana Biláh Bernardes e lançada no ano passado. A ideia da coletânea surgiu do propósito das AJEB's de ajudar as mulheres a visualizarem as possibilidades de saída dos relacionamentos tóxicos aprisionadores. Foi elaborada uma coletânea que, além de funcionar como uma ferramenta de denúncia, inclusive elencando em suas páginas canais de emergência e de denúncia em vários estados do país, possui também uma abordagem impulsionadora na busca de caminhos para romper os ciclos de violência e para sair de relacionamentos abusivos.
A princípio, a ideia começou a adquirir forma por meio da proposta de um concurso literário com o tema "Vozes Libertas". Foi formada uma comissão julgadora composta por cinco especialistas literários: Camila Dió, escritora, artista visual e flâneur contemporânea mineira; Cecy Barbosa Campos, formada em Direito e com mestrado em Teoria Literária na UFJF, professora, pesquisadora, escritora premiada; Dinorah Carmo, professora, poeta, escritora memorialística, jornalista - a primeira a presidir a Casa e o Sindicato dos Jornalistas, e que já participou da comissão de jurados do Prêmio Jabuti; Eduardo Rennó, bacharel em Letras e Comunicação Social pela UFMG, revisor de textos, escritor e poeta; e Irislene Castelo Branco Morato, atual presidente da AJEB Nacional, mestre em Odontologia pela UFMG, escritora e poeta, com prêmios em concursos literários de contos, crônicas e poesia. Irislene foi quem presidiu a comissão, onde todos assumiram a função de forma voluntária.
A partir daí, decidiu-se que seriam premiadas apenas quatro pessoas nas categorias poemas e prosa. Foram recebidos quarenta e oito textos, porém, dentro desses quarenta e oito textos apresentados, havia outros, além dos quatro premiados, que eram merecedores de premiação. Foram, então, concedidas menções honrosas a esses outros textos. Divulgados os resultados do concurso, como a maioria aderiu à participação na coletânea por meio de cotização dos custos, foi possível abrir novas adesões para a coletânea, e, assim, nasceu o livro com a publicação de textos de autoria de sessenta e sete mulheres.
O livro contou com o posfácio de Luca Creido, escritor e delegado da Polícia Civil de Minas Gerais. Achei muito significativo o posfácio ter sido escrito por um homem e profissional do Direito que lida diariamente com conflitos, pois é muito importante que essas vozes representativas de gritos silenciados não fiquem restritas ao público feminino. É importante que sejam divulgadas amplamente e que o universo masculino sensível ao tema também possa ouvi-las e ajudar a reverberá-las afinal, como bem colocou Luca em seu texto, ler essa coletânea é, para os homens, uma oportunidade de entender que a violência não se limita a elas, pois "Não há um filho que não seja tocado ao ouvir o choro de uma mãe; não há um vizinho que veja uma flor da mesma forma, após presenciar o marido embriagado destruir o jardim de sua rua em um ataque de fúria; não há um colega de trabalho que não sinta um pouco da dor, enquanto a alegria da amiga se esvai em um relacionamento tóxico". Luca Creido destaca a importância de que os leitores, sejam quem forem, se inspirem nos textos para que possam encontrar o papel que lhes cabe cumprir diante desse panorama de violência contra a mulher.
A AJEB-MG organizou, ainda, a performance artística "Vozes Libertas em Movimento" com a participação de autoras do livro e com o objetivo de colaborar na repercussão do tema e na divulgação do trabalho. Essa performance vem sendo apresentada em eventos culturais e literários e em diversas instituições que se interessam em abraçar o tema.
Recomendo a leitura! Quem quiser conhecer, basta entrar em contato pelas redes sociais da AJEB-MG ou da organizadora Biláh Bernardes, ou entrar em contato com a Editora Literíssima.
Luciana G. Rugani


Maior honra fazer parte da equipe de mulheres que escreveu este livro!
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