sexta-feira, 11 de novembro de 2011

A BANALIZAÇÃO DA AMIZADE


"Ter muitos amigos é não ter nenhum" (Aristóteles)

Ontem, em mais uma passada de olhos pelas redes sociais, me pus a pensar no quanto se transformou o sentido de palavras como “amizade”, “amigo”! À primeira vista, para os mais desavisados, ao vislumbrar a página de uma rede social tem-se a falsa impressão de um mundo maravilhoso de amizade! Alguns perfis lotados, outros abarrotados de pessoas denominadas “amigos”, pedidos e mais pedidos para serem adicionados. “Fulano começou amizade com beltrano”.. diz a atualização da rede a cada amigo adicionado. 
Amizade, no sentido original da palavra, pressupõe afeição, apreço, admiração, querer bem. Uma relação pressupõe dois lados, é via de mão dupla. E uma relação de amizade pressupõe reciprocidade. Pode acontecer de alguém ser uma pessoa amiga, afável, destinar um sentimento de amizade para outra, mas, caso esta não corresponda, não está configurada a relação amistosa.
O real significado de amigo é alguém que ama, ampara, apóia, dá atenção. Então, quando vejo os perfis da rede, aquele tanto de “amigo” adicionado que nem responde a um bom dia, quanto mais a um diálogo saudável, vejo o quanto esta palavra esvaziou de sentido, o quanto se banalizou. Observo o quanto se fala sozinho na rede, quantas perguntas ficam sem respostas, quantas mensagens de atenção e carinho simplesmente nem sabemos se são lidas. Ficam lá, como um troféu exibido aos visitantes do perfil a mostrar, hipocritamente, o quanto se é querido. Sim, as redes sociais estão repletas de hipocrisia, culto à auto-imagem, é o reverso da sanidade mental ao estimular a necessidade da opinião do outro e a ansiedade por tê-la favorável. Funcionam muito bem como ferramentas da agressiva indústria da propaganda no mundo consumista em que vivemos hoje e também para acompanhar notícias a tempo e a hora, pois, em termos de divulgação, seu papel é excelente.
Por incrível que pareça, ainda continuo em algumas redes: facebook, orkut e twitter. Entrei seguindo algumas pessoas ligadas a assuntos de meu interesse e também aberta a relações de amizade. Hoje não sei como ainda continuo! Só persisto porque através delas é que me inteiro das novidades em relação aos assuntos que acompanho. Quanto jogo de imagem! De todas as três redes, pelo menos o twitter é o mais, digamos, sensato. Utiliza o termo “seguidores” ao invés de “amigos”. Mais apropriado, mais correto. Talvez por isso seja a mais interessante das redes, pois aproxima-se um pouco mais da realidade (não digo totalmente real por ser impossível afirmar isso no mundo virtual, já que nem sempre são os próprios titulares dos perfis quem o utilizam).
“Amizade” e “amigo” têm sentido completamente oposto ao que impera nas redes sociais. Claro que, no meio de tantas pedras, podemos encontrar algumas pérolas, alguns poucos que possam fazer jus ao termo empregado, mas não nos iludamos. Não é o que busca a grande maioria dos participantes de redes e, nos moldes em que foram idealizadas, não é o fim primeiro a que se propõem as redes sociais. Atentemos quanto ao uso equivocado de tais palavras para que não causem uma falsa impressão de confiança e também para que, com o tempo, não percam de vez seu sentido original e verdadeiro. É como diz Jelson Oliveira, coordenador do Curso de Filosofia da PUC-PR, sobre a superficialidade dos laços de amizade, no livro “Para uma ética da amizade em Friedrich Nietzsche”: “No fenômeno recente das redes sociais [...] Portanto, não é necessariamente amigo de alguém. É só uma coleção de pessoas com quem se tem contato [...] Ao contrário da civilização grega, que valorizava a amizade, o mundo contemporâneo sofre com vínculos rasos".

Luciana G. Rugani 
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