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CONTO: O PRESENTE DE ANIVERSÁRIO

O PRESENTE DE ANIVERSÁRIO 

Em 1970, na pequena cidade de São Pedro da Aldeia, Região dos Lagos, no estado do Rio de Janeiro, vivia o garoto Nilo, então com oito anos de idade. 
Nilo era um garoto ativo, que se deliciava simplesmente por poder usufruir a liberdade dos garotos daquela época, quando podiam correr e brincar livremente pelas ruas da cidade, tomar banho na lagoa (até então de águas límpidas) e colocar em prática suas invenções, ideias criativas e mirabolantes de criança. 
Os pais de Nilo possuíam um comércio com as mais variadas utilidades domésticas. Sua mãe, D. Ivone, era encantada principalmente com as porcelanas. Era o setor do qual ela mais cuidava e organizava com primor a exposição das peças. Em sua casa, possuía uma coleção de pratos com pinturas variadas, herança dos tempos de sua avó e que ela guardava como relíquia. 
Naquele tempo, vivia também na cidade o Sr. Gabriel, dono da hoje famosa "Casa da Flor", patrimônio cultural do estado. Seu Gabriel, como era conhecido, passou toda a vida decorando a casa com cacos, ornamentando-a com desenhos de lindas flores feitas por cacos de louça, cerâmica, conchas, vidros, etc. Filho de escravo com índia, homem simples, trabalhador, era um sonhador que, apesar das tantas dificuldades enfrentadas no seu dia a dia, não perdeu a fé de que no futuro prevaleceria a sensibilidade, a valorização da arte, da criatividade, o senso de preservação e cuidado. Foi com essa certeza que ele passou a vida toda construindo sua obra de arte, materializando seu sonho. Certamente este homem tinha "olhos de ver" além do tempo e das aparências. 
Nilo era encantado com a casa de Seu Gabriel! Via a casa como se fosse um tesouro composto de "histórias de vida" de cada caco. Gostava de ir até lá e observar cada detalhe do trabalho. Em suas brincadeiras e andanças pela cidade, Nilo catava tudo que encontrava e que achava que traria beleza ao trabalho de Seu Gabriel, e assim, toda semana levava para ele o material que havia recolhido e sentia-se importante por estar contribuindo para a construção daquela casa. Era até um pouco relapso no uso dos copos e pratos em sua casa e torcia para que algo se quebrasse, pois, quando isso acontecia, prontamente recolhia os cacos e os levava para Seu Gabriel. Gostava de ver os materiais que recolhia tomando forma de flores coloridas! Para ele, era como se ali estivesse também uma parte de si mesmo. 
Chegou o mês de maio. Era o mês de aniversário de D. Ivone. Nilo queria dar um presente para sua mãe, mas não sabia o que. Além disso, a situação financeira de sua família andava um pouco apertada. O comércio estava vendendo pouco. O lucro auferido dava para manter a família de três pessoas (Nilo era filho único), mas gastos extras tinham que ser programados com bastante antecedência. Nilo pensou, pensou, e teve mais uma de suas ideias geniais! Iria fazer para sua mãe a maior das homenagens que alguém poderia fazer! Imortalizar seu amor e carinho nas paredes da casa de Seu Gabriel por meio dos cacos de um dos pratos da coleção de sua mãe, o prato do qual ela mais gostava! Assim, imaginava ele, ela terá meu carinho e a lembrança de sua avó gravados para sempre na casa de maior sucesso na cidade, a casa do futuro, onde todos poderão apreciar o trabalho, em especial uma flor desenhada com cacos de um belíssimo prato pintado com desenhos coloridos e raros. Os visitantes conhecerão a história dessa flor especial, e conhecerão também o amor grandioso de um filho por sua mãe! 
E assim saiu correndo, rumo ao armário da cozinha, onde ficava a preciosa coleção de sua mãe. Escolheu aquele que sabia ser o preferido dela e pronto: jogou-o ao chão e os cacos se espalharam. Prontamente os recolheu e foi correndo à casa de Seu Gabriel. Chegando lá, pediu a ele para desenhar a mais bela flor, grande, colorida, linda, pois era uma flor que eternizaria o amor que tinha por sua mãe. Ela certamente iria ficar muito feliz por saber que ali, entre tantos desenhos com cacos, aquele mais bonito que se destacava era a flor feita com os cacos de seu prato preferido. Seria o desenho que mais chamaria a atenção de todos os visitantes, seria o mais famoso deles! 
Após Seu Gabriel terminar o desenho, Nilo voltou para casa todo contente e chamou sua mãe. Com os olhinhos brilhando de felicidade, disse a ela que tinha um presente lindo de aniversário para ela. Algo diferente, maravilhoso, que permaneceria para toda a vida sendo admirado por pessoas do mundo inteiro! D. Ivone ficou feliz com a espontaneidade do garoto e muito curiosa para saber que presente era aquele. 
Nilo então a pegou pela mão e levou-a até a Casa da Flor. Chegando lá, levou sua mãe de olhos fechados até onde estava a linda flor criada com os cacos do prato da coleção de D. Ivone e do qual ela mais gostava. Nilo então disse a ela que ali estava o presente! Todos poderiam admirar para sempre a flor símbolo do seu amor por sua mãe, feita do seu prato preferido! 
D. Ivone então abriu os olhos e, quando viu a flor formada com os cacos do prato de sua coleção, sua fisionomia mudou drasticamente. Sem medir palavras, gesticulando e falando alto, expressou toda sua revolta e decepção. Chamou a atenção de Nilo na frente de todos. O garoto, surpreso com a reação de sua mãe, começou a chorar copiosamente, como nunca havia chorado em toda sua vida. D. Ivone pegou-o pela mão com toda força e arrastou-o para casa. Durante o trajeto até em casa, Nilo escutou todo tipo de impropérios. Suas lágrimas desciam sem parar. Ao chegarem em casa, foi colocado de castigo. Por uma semana estava proibido de sair de casa, a não ser para ir à escola. Nada de brincadeiras e, quando ficasse em casa, ficaria somente dentro de seu quarto. D. Ivone parece que perdera totalmente o bom senso. Ficou muito magoada com Nilo. 
Os dias foram passando. Nilo, antes um garoto espontâneo e alegre, simples, sem maiores complicações emocionais, tornou-se um garoto mais fechado com sua família. Perdeu muito de sua alegria em casa, principalmente junto à sua mãe. Afastaram-se emocionalmente um do outro. 
O tempo correu ligeiro e chegou o ano de 1985. Nilo era agora um belo rapaz de 23 anos. A introspecção que adquirira desde o triste episódio fizera dele um rapaz com certo ar melancólico que o fazia parecer um pouco misterioso, deixando-o ainda mais belo. Chega até sua residência a notícia de que Seu Gabriel acabara de falecer. Na mesma hora, Nilo se arruma para ir até a Casa da Flor e, quando está saindo, seus pais pedem para que ele os espere um instante, pois também queriam se despedir de Seu Gabriel. E assim foram todos para a residência daquele senhor, artista nato, mestre da criatividade na arte de reciclar, e que infelizmente acabava de partir. 
Ao chegarem na casa, já havia uma multidão de pessoas querendo prestar a última homenagem àquele homem que, em toda sua simplicidade, construíra uma das mais belas obras da arquitetura popular brasileira. Tanto D. Ivone como Nilo, depois daquele dia fatídico, nunca mais voltaram na Casa da Flor. 
Eis que de repente D. Ivone vê ao longe aquela flor, a mais bela de todas as flores da casa, em localização bem visível, chamando a atenção de muitos que ali apreciavam a obra de Seu Gabriel. Ao redor daquela flor havia um grupo enorme de pessoas. D. Ivone aproximou-se do grupo e começou a escutar a fala de uma moça que contava aos demais membros do grupo a história daquela flor especial. A moça dizia que a flor havia sido feita com os cacos do mais belo prato de rara coleção, doados por um garoto no intuito de presentear sua mãe com o símbolo do seu amor que ali ficaria eternizado para todos verem e saberem que o amor é para brilhar, para ser vivido e para servir de inspiração para que outras pessoas também possam senti-lo. 
De repente, as palavras daquela moça tocaram fundo o coração de D. Ivone. Ao ouvir a história, veio em sua mente um insight. Ela caiu em si e percebeu o quanto havia errado ao ter sido tão ríspida e dura com Nilo. Captou a essência da mensagem daquela moça e compreendeu que, muito mais importante que um prato guardado em bela coleção, era a demonstração de amor e carinho de seu filho. Percebeu o quanto seu filho era muito mais sábio que ela, pois, ainda garoto, ele soube perceber que de nada vale acumular tesouros na terra, de nada adianta sufocar com apego as nossas maiores preciosidades. O amor cresce, transforma-se e multiplica-se somente se cultivado livre, sem aprisionamento. E que a lembrança que tinha da sua avó, antes retratada pelo prato guardado no armário, estava ali muito mais viva, pois agora era alimentada por um amor inspirador e contagiante. 
Nilo estava um pouco mais afastado, perdido em seus pensamentos em um canto da casa. D. Ivone foi até ele com os olhos marejados. Abraçaram-se. Ela pediu perdão com todas as suas forças. Relatou tudo que ouviu e disse que somente ali, naquele momento, que conseguiu compreender a nobreza da atitude de Nilo, há 15 anos. Nilo também chorava. Parecia que, naquele instante, tirava um peso de seu peito e rompia-se de vez a barreira emocional que ficara entre eles todos aqueles anos. 
A alegria espontânea voltava a brilhar na face de Nilo. D. Ivone parecia rever em seu filho aquele garoto feliz, entusiasmado, ativo e cheio de energia. 
Voltaram felizes para casa. Nunca mais houve distanciamento entre eles, e a alegria voltou a reinar no coração de Nilo. Aquele dia, com certeza, houvera sido o primeiro dia de sol do resto de suas vidas.

Luciana G. Rugani

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