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A DEMÃO DE TINTA


Comumente, ao observarmos um fato simples e corriqueiro, nossa mente divaga e amplia-se ao construir um sentido maior para aquele fato. E assim aconteceu comigo, há cerca de um mês e pouco.
No hall de entrada do prédio onde moro, havia, em uma parede, duas pinturas de nossa Praia do Forte. Eu gostava daquelas pinturas, pois transmitiam, logo de cara, a alegria praiana a quem adentrasse o prédio. Certo dia, resolveram retirar as pinturas. Pela manhã, quando eu saía de casa, vi o pintor escondendo pouco a pouco aquelas paisagens. A cada subida e descida do rolo de tinta, a noite cobria aquele dia de sol das pinturas... e a paisagem sumia, definitivamente, de nossos olhos. Fiquei por uns minutos observando e pensei: quantas histórias envolvendo essa paisagem, quantos olhares por ela atraídos, quantos comentários positivos (ou talvez não) em relação a elas! Mas enfim, elas se foram, e ficou somente a pintura branca, lisa, sem nenhum desenho, onde seriam colocados espelhos. Não mais teríamos o lúdico da paisagem para amenizar nossos pensamentos, e sim o "topar com o real". Ao olharmos para a parede, veríamos agora a nós mesmos, no ambiente real, sem abstrações e sem imaginação. Por fim, a reforma ficou até bacana, e a entrada do prédio tinha, agora, um ar mais sofisticado.
Mas voltemos à observação do trabalho do pintor.
Ao observar cada descida e subida do rolo, e a paisagem sumindo a cada demão de tinta, pensei: e não é que, frequentemente, recebemos uma demão de tinta sobre fatos de nossas vidas? Aquele tempo que precisamos deixar para trás, as fases da vida que já se foram, aqueles que se foram de nossas vidas, sejam amigos, amores ou parentes, o trabalho que já cumpriu seu prazo, entre muitas outras vivências. Comumente, a vida nos ensina que é preciso passar a demão de tinta e seguir. Queiramos ou não, muitas vezes é assim que deve ser, porém, assim como o espaço da pintura praiana foi ressignificado e deu origem à sofisticação dos espelhos e luzes, nossas vivências, sob a demão de tinta do tempo, também podem ser ressignificadas. Ao invés de enxergarmos a conclusão de nossas vivências de uma maneira rígida, como um ponto final, consideremo-la apenas como o registro, em nosso arquivo pessoal, de mais uma experiência vivida e que nos fez ser quem somos hoje, mais sábios que ontem, mais experientes que no passado. Até mesmo as pessoas que se foram, por quaisquer motivos, podem ser consideradas como pessoas que cumpriram o que tinham para cumprir em relação à nossa evolução pessoal, pois ao relacionarmos com o outro sempre aprendemos muito. Assim, de certa maneira, elas seguem em nós. É menos doloroso enxergarmos dessa maneira as mudanças involuntárias que ocorrem em nossas vidas.
Há também mudanças voluntárias, quando resolvemos concluir um determinado ciclo. Daí, pensamos ser uma decisão definitiva, mas deixemos isso a cargo do tempo. Digamos apenas: "encerrei esta etapa. Se amanhã eu voltar a lidar com isso, ainda que seja a mesma situação, eu já não serei a (o) mesma (o), pois sou agora a soma do que fui ontem e do que vivo hoje". Então será algo diferente, ainda que seja a mesma situação.
A questão é colocarmos menos carga emocional nos ciclos que vivenciamos. Deixar ir as situações vividas, encará-las como ciclos vividos e preenchidos, mas deixar a cargo do tempo a decisão sobre a definitibilidade. Nada é definitivo, tudo é mutante! Somos seres em constante e infinito aprimoramento.
Que possamos preencher nossas vidas com mais vírgulas, deixando a cargo do tempo a colocação dos pontos finais.

Luciana G. Rugani

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