quarta-feira, 15 de julho de 2015

DIÁRIO CABOFRIENSE: VIVEMOS TEMPOS LÍQUIDOS

Minha coluna de hoje no jornal "Diário Cabofriense". Abaixo da foto, segue o texto para mais fácil leitura:




Em seu livro "Amor líquido", o sociólogo polonês Zygmunt Bauman fala sobre o quanto que hoje em dia as relações se tornaram líquidas, próprias de um tempo também "líquido". Zygmunt é um dos maiores intelectuais da atualidade. Aos 87 anos, seus livros já venderam mais de 200 mil exemplares.

Eu não conheço os livros de Zygmunt, mas assisti à sua entrevista em um vídeo do youtube onde fala do assunto.

Ele chama de "tempos líquidos" o tempo atual, onde nada é feito para durar. A ideia de "descartável" tomou conta também das relações humanas, sejam elas presenciais ou virtuais, e assim afinidades são coisas raras. As pessoas estão tomadas pelo medo e pela insegurança. Querem relacionar-se, mas temem se machucar. Não se doam nas relações e chegam até mesmo a cortar os vínculos ante o menor sinal de divergência. Segundo o autor, as pessoas pensam que exterminam um problema ao simplesmente cortarem os vínculos, mas na verdade apenas criam um problema em cima de outro.

Concordo com o pensamento dele. Parece que as pessoas buscam, logo de cara, uma relação pronta e perfeita. E isso não existe. Uma relação, qualquer que seja, deve ser construída com tolerância, compreensão, respeito, diálogo, e principalmente disposição para doar-se e coragem para revelar-se. Não se constrói uma relação duradoura sendo quem não se é e sem disposição para doar um pouco de si e de seu tempo para o outro. E hoje muitos preferem seguir vazios nas relações, ou simplesmente deletar vínculos, do que ter o trabalho de construir relações mais sólidas. O "excluir" e o "delete" são muito bons enquanto mecanismos de computador, ou do smartphone, mas são apenas parte de um instrumento que nos possibilita relacionar com o mundo, mas que não se confunde com a relação em si. A relação é algo vivo, que envolve o emocional de outras pessoas que também querem ser ouvidas e amadas.

Para o autor, as pessoas vêm sendo tratadas como bens de consumo: em caso de defeito, descarta-se, ou troca-se por “versões mais atualizadas”. E assim o amor verdadeiro foi banalizado, a palavra "amor" perdeu seu conteúdo e é utilizada de forma vazia, sem o conhecimento real de seu significado.

O ser humano tenta viver bem dentro do paradoxo: quer relacionar-se, quer ser aceito e amado, mas não se dispõe a doar-se em um relacionamento, não se dispõe a viver plenamente uma relação e, principalmente, não se dispõe a amar o outro de forma sólida, com comprometimento e sem medo. Não há disposição em construir, não há tempo para consolidar relações. Os dias têm as mesmas 24 horas dos dias de antigamente, o conforto da tecnologia de hoje nos permite gastar menos tempo nos afazeres diários, mas o imediatismo de querer relações prontas e perfeitas fez com que esse tempo se tornasse "líquido", e assim as relações simplesmente escorrem das mãos como se fossem água.

Talvez essa seja a razão de hoje em dia haver tantas pessoas solitárias e deprimidas, apesar de existirem tantas formas de comunicação.

É como também já disse Jelson Oliveira, coordenador do Curso de Filosofia da PUC-PR, sobre a superficialidade dos laços de amizade: “Ao contrário da civilização grega, que valorizava a amizade, o mundo contemporâneo sofre com vínculos rasos". 

Luciana G. Rugani

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