Hoje, no Blog do Totonho, falo sobre o triste acontecimento da invasão dos EUA na Venezuela e a ânsia de poder e ganância que guia o atual governante (ou seria desgovernante?) dos EUA:
Essa foi a definição mais simbólica que me veio à mente quando vi a notícia sobre o ataque dos Estados Unidos à Venezuela e o sequestro do presidente Nicolás Maduro: assalto à mão armada!
Antes de tudo, quero pedir desculpas aos leitores desta coluna por começar o ano escrevendo sobre algo tão repulsivo e inaceitável como foi esse ataque promovido por aquele que, talvez, se ache o dono de toda a América. Minha intenção inicial era escrever sobre algo mais leve e que nos impulsionasse a um estado de espirito mais positivo, entretanto esse fato horrível aconteceu no dia 3 passado, levando embora, abruptamente, a ilusória sensação de "ano novo" que costuma tomar a maioria das pessoas em início de ano.
Um ataque realizado de madrugada e que deixou ao menos 80 mortos, entre civis e militares, segundo apuração do jornal The New York Times. Relatos horríveis, como o de um morador do bairro popular de La Guaíra, que teve sua casa atingida por um míssel e perdeu também a sua tia, atingida pela explosão enquanto olhava, sentada tranquilamente, o seu celular. Um ataque motivado, declaradamente, conforme deixou claro o presidente norte-americano em seu pronunciamento, pela ânsia de domínio das maiores reservas de petróleo bruto do mundo, que são as reservas da Venezuela. Além disso, resta claro o objetivo estratégico de barrar o crescimento da China, por ser a China o maior comprador do petróleo bruto da Venezuela. China e Venezuela reforçavam suas relações diplomáticas, inclusive a delegação chinesa ainda estava em solo venezuelano, quando o ataque aconteceu. A intervenção americana acontece no momento em que os Estados Unidos parece recriar uma Doutrina de Contenção com foco na China, porém agora de uma maneira totalmente ilegal, forjada em acusações sem provas de que Maduro facilitaria o narcotráfico. Tal acusação representaria um artifício, criado pelos EUA, para possibilitar a invasão e o sequestro do presidente venezuelano, já que, se não houvesse uma denúncia de crime, seria necessária autorização do congresso americano para que os EUA pudesse atacar e derrubar o presidente Maduro. Tanto é assim que a denúncia contra Maduro, promovida pela procuradoria-geral estadunidense, aconteceu após o ataque! E pra ficar ainda mais evidente que a denúncia teria sido criada como artifício para invadir, na última segunda-feira os EUA recuaram e deixaram de acusar Maduro com narcotraficante, inclusive o cartel que haviam citado como sendo liderado por ele (Cartel de Los Soles) não é conhecido nem por especialistas no mercado mundial de drogas! Não há qualquer menção a esse cartel em publicações do Escritório para Drogas e Crimes da ONU e o Relatório Anual sobre Ameaças de Drogas da DEA (Administração de Combate e Drogas) de 2025, do próprio governo dos EUA, também não menciona o suposto cartal.
A atitude do presidente estadunidense ignora todo e qualquer princípio do Direito Internacional, representa a materialização de toda a covardia impregnada na "lei do mais forte". O imperialismo norte-americano nunca se apagou, porém, neste governo, ele ressurge sem máscaras, tendo à mostra seus braços estratégicos de notícias falsas, criação de cenários para falsos contextos e nenhum respeito pela soberania dos países que entende serem destinados a servir à sua ilimitada arrogância. Os interesses perversos de domínio são muitos e giram nas esferas econômica e política. A Venezuela, historicamente, representa um polo de resistência, na América do Sul, contra o império da força estadunidense. É como um símbolo da luta pela soberania e independência dos países latinos, e um ataque à Venezuela busca também mostrar aos seus vizinhos da América que os EUA não aceitarão que as nações se desenvolvam e cresçam de maneira independente e soberana, sem simplesmente servirem aos interesses americanos. É um aviso de que todos os demais países que, por acaso, possuam algo de interesse dos EUA, seja recurso natural ou algo que sirva estrategicamente à sua política imperialista, poderá ser invadido se assim determinar a covardia daquele que se julga rei do mundo, bastando para isso a criação de um falso pretexto. Não se trata aqui de falar como era ou não era o governo de Maduro, mas sim de falar sobre o que a Venezuela representa neste contexto, em razão de sua história e da história da América Latina, e sobre a imposição de poder e ofensa à soberania dos países e ao multilaterismo, por parte dos EUA.
Na minha mensagem de fim de ano, falei sobre o receio do que poderia vir pela frente, tendo em vista a super valorização das guerras e do poder obscuro, por parte de líderes mundiais, para satisfação de uma ganância sem limites. Contudo, falei também sobre a importância da mudança de cada ser humano para que o ano que se inicia possa ser de fato um novo ano, sem as mesmas quedas seculares. Agora venho falar sobre a importância de olharmos para isso tudo de maneira mais coerente com os valores que representem, verdadeiramente, o desejo de seguirmos vivendo em um país livre, democrático e soberano. A importância de nos posicionarmos mais fortemente aos lado dos ideais progressistas afirmados por nossa constituição federal e rechaçarmos quaisquer outros aventureiros políticos que estão por aí a defender a entrega da liberdade latino-americana aos EUA.
Ao se manter essa atitude do governo norte-americano, todo e qualquer país estará vulnerável. Ao se aceitar essa politica do mais forte, toda invasão será permitida. E tudo isso só está acontecendo porque alguns cidadãos se venderam ao poder norte-americano e outros se deixaram levar pelas falsas narrativas estadunidenses, abriram mão de estudar mais a fundo o contexto real dos fatos e elegeram, em todo o mundo, nomes sem o menor preparo para serem estadistas. Esses cidadãos bradam valores que não condizem com suas atitudes e com suas escolhas. Por isso, reafirmo o que também disse em minha mensagem de ano novo, sobre a necessidade urgente do aprimoramento constante de cada ser humano, o que envolve disposição de estudar mais a fundo as realidades e abertura para o conhecimento capaz de nos libertar das falsas narrativas. Somente assim o ser será capaz de perceber o limite do inaceitável, para que não voltemos à total barbárie e que possamos seguir vivendo em um mundo dito "civilizado".
Luciana G. RuganiPensadora, escritora e poeta

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