No meu artigo de hoje, no Blog do Totonho, apresento o resumo de alguns discursos em relação à dinâmica arbitrária à qual temos assistido, nos últimos tempos, e teço algumas considerações:
Nos dias atuais, quando a ordem mundial se agita ao vento de uma desordem tirânica, dois discursos me chamaram a atenção e vale a pena falar um pouco sobre eles.
O primeiro foi o discurso da groenlandesa e fundadora do Partido da Cooperação, Tillie Martinussen. Destacarei alguns pontos principais:
Tillie inicia seu discurso falando um pouco sobre a cultura e sobre os valores dos groenlandeses. De minha parte, percebi uma visão diferente e muito mais de acordo com as tantas transformações do nosso planeta, principalmente o esgotamento da capacidade ambiental, que revelam um planeta saturado de tanta exploração e um sistema capitalista cada vez mais predatório e sem limites éticos, legais ou naturais. Tillie afirma que o presidente estadunidense certamente não conhece o povo da Groenlândia. Segundo ela, os groenlandeses não dão valor especial ao dinheiro, aos lábios Kardashian e a outras tantas coisas do mesmo tipo. Na Groenlândia, nem mesmo a terra se pode possuir. A pessoa pode obter um lote, construir sua casa e ser dona dessa casa sobre o terreno, mas não é dona da terra em si. Eles entendem que a terra pertence a todos, e o mesmo se aplica ao mar e às riquezas nele contidas. Por isso, segundo ela, é um grande erro pensar que eles possam ser comprados com dinheiro. Eles nunca abririam mão da saúde gratuita, da educação gratuita, de fazer parte da Europa e também nunca abririam mão de sua soberania que, mais cedo ou mais tarde, é o objetivo dos groenlandeses. Ela continua dizendo que, qualquer coisa que o groenlandês queira estudar na Groenlândia, ele pode estudar gratuitamente e, na verdade, o governo ainda dá uma bolsa de estudos. Disse que nunca os groenlandeses trocariam o Estado de bem-estar social por algo que viesse da América e que os groenlandeses não querem ser ricos da mesma maneira que os americanos, pois basta ver como eles são gananciosos. Chegam até a atirar em seus amigos ou a invadir seus amigos por pura ganância. Acrescentou que a Groenlândia tem ciência de que em seu subsolo pode haver riquezas, mas, mesmo que houvesse, eles não se deixariam comprar. Mencionou a história de povos nativos americanos, os indígenas americanos. Disse que suas terras foram roubadas e que eles não foram bem tratados nos Estados Unidos. Completou dizendo que o presidente estadunidense se cerca, em grande parte, de pessoas ligadas à supremacia branca e que, portanto, se os groenlandeses permitissem o domínio americano, certamente teriam também seus direitos retirados. Em relação ao domínio dinamarquês, disse que, por enquanto, está bem como está e, se um dia quiserem conquistar a independência, será algo a ser decidido pelos groenlandeses e não por uma superpotência distante.
O discurso continuou, mas esses foram os pontos principais e que já nos trazem muito material para reflexão. Vejo esse discurso como a apresentação de uma maneira mais evoluída de encarar os recursos naturais e financeiros em nosso planeta. Uma visão mais coletiva e mais empática, tão necessária hoje em dia, quando a Terra já nos dá sinais de que a recuperação ambiental certamente não será mais possível. Uma visão que confronta a visão arcaica e predatória de um capitalismo sem limites, em que o lucro a todo custo está acima da ética, da coletividade e até da soberania, um sistema falido, que, justamente por ter sido conduzido sem limites, chegou à beira do caos do "salve-se quem puder", da lei do mais forte que pode sair por aí se apoderando de terras, de riquezas e de recursos naturais de outros países. Ela nos revela uma sociedade que sabe que o dinheiro não é tudo a se oferecer e que uma sociedade evolui quando compartilha a terra e os recursos essenciais para a boa formação de um ser humano, como a Saúde e a Educação. Uma mostra de que a ganância que a tudo precifica só é capaz de gerar pobreza e desigualdades extremas, e de que um olhar mais coletivo, mais justo e mais empático é o que impulsiona, verdadeiramente e em bases sólidas, uma sociedade.
O outro discurso que vale a pena trazer alguns trechos foi o do primeiro ministro do Canadá, Mark Carney, durante o Fórum Econômico Mundial.
O discurso de Mark Carney tem um aspecto mais pragmático quando ele fala sobre o que ele considera ser uma ruptura na ordem mundial, o fim de uma bela história e o início de uma realidade brutal em que a geopolítica entre as grandes potências não está sujeita a quaisquer restrições. Ele fala sobre como as potências médias podem se adaptar a essa realidade, inclusive cita algumas ações do Canadá nesse sentido. Mas sua fala tem algo que também muito me marcou, e que começa com a afirmação de que outros países, especialmente as potências médias, não são impotentes e têm a capacidade de construir uma nova ordem que incorpore, segundo ele, os valores do Canadá, como o respeito aos direitos humanos, o desenvolvimento sustentável, a solidariedade, a soberania e a integridade territorial dos Estados. Ele cita um ensaio intitulado "O Poder dos Sem Poder", de autoria do dissidente checo Václav Hável. Nesse ensaio, Hável conta a história de um verdureiro que, todas as manhãs, colocava em sua vitrine uma placa com um dizer no qual ele não acreditava, ninguém acreditava, mas mesmo assim ele colocava essa placa, pois o dizer sinalizava conformidade com o sistema então adotado em seu país. E como todos os comerciantes faziam o mesmo, o sistema permanecia. Hável chamou isso de "viver dentro de uma mentira", e concluiu que o poder do sistema não vem de sua verdade, mas sim da disposição de todos em agir como se fosse verdade. E sua fragilidade vem da mesma fonte: quando uma única pessoa deixa de agir, ou seja, quando um só verdureiro retira sua placa, a ilusão começa a ruir.
Mark Carney, então, diz que é hora de empresas e países retirarem suas placas. Segundo ele, os países, como o Canadá, prosperaram sob o que chamavam de ordem internacional baseada em regras. Aderiram às suas instituições, se beneficiaram de sua previsibilidade. Sabiam que a história da ordem internacional baseada em regras era parcialmente falsa, pois os mais fortes delas se isentariam quando lhes fosse conveniente. Sabiam que as regras comerciais eram aplicadas de forma assimétrica e sabiam que o direito internacional se aplicava com rigor variável, a depender da identidade do acusado ou da vítima. Disse que essa ficção lhes foi útil, então "colocaram a placa na janela" e evitaram apontar as discrepâncias entre a retórica e a realidade. Afirmou que não se pode "viver na mentira" do benefício mútuo por meio da integração quando a integração se torna a fonte da sua subordinação. Mencionou as instituições multilaterais como a OMC, a ONU e a COP e disse que a própria arquitetura de resolução coletiva de problemas está ameaçada.
O discurso de Mark é bem extenso, mas o mais marcante foi a chamada para que as potências médias "retirem a placa da janela" e construam aquilo que afirmam acreditar, reduzindo a influência que permite coerção e construindo uma economia doméstica forte, pois os países conquistam o direito de adotar suas posições baseadas em princípios quando reduzem sua vulnerabilidade a represálias. Segundo Mark, os poderosos têm seu poder. Mas as potências médias também têm algo: a capacidade de parar de fingir, de dar nome à realidade, de se fortalecer em casa e de agir em conjunto. Disse que, para manter a harmonia, sempre houve uma forte tendência dos países a cederem, a se acomodarem a uma ordem que prega algo como o aforismo de Tucídides, em que "Os fortes fazem o que podem e os fracos sofrem o que devem", mas que essa conformidade não garante a segurança. E assim ele finaliza seu discurso dizendo que a velha ordem não mais voltará, mas que podemos construir algo melhor, mais forte e mais justo, e que essa é a tarefa das potências médias.
Lendo ambos os discursos, não me furtei a lembrar, ainda, das falas recorrentes de Lula, o nosso presidente aqui do Brasil, quando ele insiste tanto na importância do multilateralismo como único caminho para lidar com as crises globais, na importância de fortalecer a ONU e as demais organizações internacionais e no respeito à soberania dos países. Enquanto isso, ele trabalha no fortalecimento econômico do país, o que vemos refletido na melhora de todos os índices econômicos.
Então vejo, em todos esses discursos, a diretriz comum de seguir em frente, de se fortalecer e se desenvolver com respeito a valores que devem nortear a humanidade daqui pra frente, se quiser que o planeta siga vivo. E penso que, do jeito que seguem as arbitrariedades do presidente norte-americano, em breve muitas placas serão retiradas das janelas das nações e, quem sabe, até mesmo da janela da própria sociedade estadunidense como um todo. Não sei como será, ou o que disso advirá, mas torço para que haja um limite para tanta barbárie por parte de um governante.
Luciana G. Rugani
Pensadora, escritora e poeta

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